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[CAIXA DE PANDORA] De uma filha para sua mãe

Por Juliana Florencio* |

Mãe, hoje eu sei que você teve muito medo.

Medo da vida.

Hoje eu sei que você não foi vista quando criança e, por isso, não pode olhar para mim como eu era.

Eu sei que você sobreviveu acreditando que não se deve confiar em ninguém e me ensinou a não ser espontânea porque isso é perigoso.

Você também me ensinou a não ter esperança para não me decepcionar, porque a frustração já tinha tomado conta de você.

Você assimilou, desde pequenininha, que sexualidade é perigosa e poderia causar estragos e muita dor.

Ser mulher era muito perigoso, não é, mãe?

Eu cresci com esse medo também…

Te disseram que menstruação era sujeira e você ficou envergonhada, por isso senti vergonha também.

Você me incentivou a estudar para ser “alguém na vida”, porque ser criativa e ter outros interesses não me levariam a “lugar nenhum”… Então, eu me senti podada…antes do tempo.

Ser forte para você era ser racional e insensível.

Ah! Esses sentimentos… nos fazem perder o controle.

Sem esse incansável alerta, o inesperado poderia acontecer… e tragicamente seria uma coisa muito ruim. Isso nos causava calafrios de horror.

Ah! Quanto controle! Casa sempre arrumada, igreja, filhos educados, aparência de família feliz…

Ah, mãe! Quanto desses medos passaram a ser meus. Como eles me aterrorizaram.

Mas, mãe, hoje eu cresci e descobri que a vida pode ser boa também.

Hoje eu sei que eu posso errar e aprender a me proteger.

Conheci pessoas boas com as quais eu posso ser espontânea.

Hoje eu sei que o meu corpo não é perigoso… nem meu coração.

Hoje eu sei que o controle não me protege de nada, só me faz ter mais medo e ilusões.

Hoje eu sei que a vida é feita de bem e mal, e que me esconder não me tornará imune às dores.

Hoje eu sei que a experiência me torna capaz de enfrentar os meus demônios e ir em busca do que me faz feliz.

Mãe, eu sei que você me olha com estranheza.

Mas, mãe, eu estou trilhando o meu caminho.

Apesar de todos os meus medos, eu sigo cuidando do bem mais precioso que recebi e veio através de você: a vida.

 

*Juliana Florencio é psicóloga, arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica em formação. Recifense de coração, atualmente mora em Stuttgart – Alemanha, onde realiza seus atendimentos. Escreve mensalmente a coluna Caixa de Pandora, neste Portal Flores no Ar.

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E-mail: juflorenciocs@gmail.com

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