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[CAIXA DE PANDORA] Bolsonaro e a Misoginia

Fonte da foto: Mídia Ninja

 

| Por Juliana Florencio* |

A ascensão de um candidato como Bolsonaro, e a quantidade de pessoas que o querem como presidente, me levaram, primeiramente como brasileira e, também, como psicóloga, a tentar compreender este fenômeno.

Não há duvidas de que este candidato constela vários ensejos – sombrios, no meu ponto de vista – de parte de um povo.

Tais desejos vão para além de propostas políticas, pois este candidato não as tem. Por isso, inclusive setores de direita, que acreditam numa estratégia política neo-liberal, também estão temorosos.

Discursos como o armamento da população também não fazem o menor sentido, pois obviamente com mais armas circulando, criminosos poderão ter acesso mais fácil a estas – portadores de armas, mesmo que legalmente, são constantes alvos de roubos que muitas vezes terminam em morte. Além do mais, todos os candidatos a portadores de armas se consideram “pessoas de bem” até que a vida prove o contrário.

Uma questão crucial para esta ascensão é a misoginia. E eu vou me concentrar nela neste texto. Porém gostaria de frisar que outro apelo utilizado por Bolsonaro é o ódio aos ideais libertários como um todo. Mas, no final de contas estes discursos “anti-esquerda” recaem no enredo machista, pois propõem claramente a manutenção dos valores patriarcais (Deus, família tradicional, estado e propriedade) e a exclusão das diferenças.

No dia-a-dia, tenho percebido homens que não conseguem lidar com os novos lugares que as mulheres têm alcançado. Não conseguem se relacionar com este feminino mais liberto de tantas opressões históricas.

São homens que não têm se transformado para conviver com mulheres numa posição de igualdade de direitos. Homens que estão enclausurados numa masculinidade dominadora, opressora, excludente.

Uma masculinidade saudável não se enfraquece frente a uma mulher que busca a plenitude da vida. Pelo contrário, se fortalece, se revigora.

Tenho visto muitos homem, eleitores de Bolsonaro, revestirem-se do discurso pseudo-cristão para justificar, de uma forma mais plausível, esta escolha. O que também não faz o menor sentido, se observarmos o que Jesus pregava.

Afirmam que a ideologia de gênero, a garantia dos direitos LGBTIs, a educação sexual e professores de história (isso mesmo!) são contra os valores cristãos.

Tanto os argumentos religiosos, como os de defesa da “família tradicional”, são recursos para justificar o voto, dada falta de argumentos políticos. Mas, ao mesmo tempo, servem como álibi contra qualquer tipo de reflexão sobre as propostas anti-democráticas e mesmo anti-cristãs de Bolsonaro, pois para estes a ameaça “do diferente” (esquerdistas, comunistas, cotistas, feministas, índios, gays, refugiados e sem-terra) é maior.

Neste cenário, aceitar o direito do outro que é diferente seria sentido como uma ameaça a esta masculinidade desgastada. Uma afronta ameaçadora a este padrão de homem.

Daí, pode surgir a questão: “E sobre as mulheres que votam nele?”

Ora, devemos entender que machismo não é uma coisa restrita a homens. Mulheres têm sido oprimidas desde sempre. Aspectos do feminino têm sido negados, patologizados e até mesmo demonizados. (Leia sobre isto em [CAIXA DE PANDORA] Sobre Afrodite… A negação da Deusa e a doença psicossomática)

Muitas mulheres têm introjetado o padrão machista do que é ser mulher. Fomos educadas dessa forma. Muitas lidam com seu feminino de forma negativa. Além do mais, a possibilidade de não serem aceitas socialmente, para as que desviam do padrão, ainda existe e é forte.

Sabemos que existe o risco da exclusão e da violência (das diversas maneiras que esta pode se manifestar) para aquelas que buscam se conhecer e se apoderar dos aspectos adormecidos e rechaçados do feminino. Ser aceita num mundo machista é, às vezes, questão de sobrevivência – inclusive em esferas psíquicas.

O feminismo é importante na luta pela igualdade de direitos e hoje vemos tomar força, no movimento de mulheres, a busca pelo reconhecimento de aspectos do feminino por muito tempo negligenciados ou rechaçados.

Porém, muitas mulheres gravitam em torno do padrão machista. Muitas ainda esperam ser reconhecidas através deste sistema.

Por tudo isso, entendo que a ascensão de Bolsonaro é um movimento misógino a fim de parar ou voltar no tempo. Um tempo de uma estabilidade garantida a partir da opressão de qualquer diferença – patriarcalismo, ditaduras. Estável para manutenção do império desta masculinidade opressora, militar, monoteísta.

O mundo está em transformação, mulheres começaram esta mudança, muitos homens já estão redescobrindo sua masculinidade e podendo exercê-la de uma forma mais pessoal. Por outro lado, muitos estão desalojados… procurando agarrar-se às velhas e ultrapassadas garantias e modelos de vida defasados. E Bolsonaro significa isto.

Termino este texto na esperança de que a democracia nos salve da opressão e que o desejo de igualdade seja maior do que o ódio às diferenças.

*Juliana Florencio é psicóloga, arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica. Recifense de coração, atualmente mora na Alemanha. Realiza atendimentos online. Escreve mensalmente a coluna Caixa de Pandora, neste Portal Flores no Ar.

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